UMA MEIA VERDADE,

PODE TER DOIS VALORES UMA EMPRESA ?


Quando uma empresa é "precificada", ou seja, quando é calculado seu valor intrínseco ou Preço Justo Esperado, pode a empresa ter dois valores diferentes?

Lembre que avaliar empresas tem como propósito principal estar preparado para a tomada de melhores decisões sobre a nossa empresa como por exemplo, uma iminente venda dela, medir seu desempenho, compra de outra empresa, em fim, uma série de aplicações interessantes e quase que intermináveis no mundo empresarial.

Para responder a essa pergunta você precisa compreender perfeitamente o DNA financeiro de uma empresa.  Mas se você não é um especialista, não se preocupe, vamos conduzi-lo passo a passo e lhe mostrar que não é tão difícil chegar a uma resposta coerente.

Não esqueça de que o valor do qual estamos falando não se restringe somente ao valor contábil dos ativos da empresa, e sim, ao poder que a empresa tem de gerar lucros.  Em palavras mais precisas, gerar de forma constante sobras de caixa.

Vamos agora sim, responder a pergunta do artigo, mas antes apresentaremos o que a maioria dos especialistas aceita como uma verdade generalizada.  Eles alegam de que mesmo partindo dos "mesmos dados de entrada" da empresa, todos os avaliadores podem chegar a diferentes valores do preço da empresa e todos ter razão.  Eles demonstram isso alegando que no fundo uma avaliação tem mais de arte que de ciência e que cada avaliador tem sua visão pessoal, que logicamente é diferente dos demais.

Nós vamos tentar demonstrar que eles estão equivocados.  Ou seja, vamos demonstrar que a resposta à pergunta do artigo é que uma empresa NÃO pode ter dois preços.

Mais tarde vamos mostrar em qual situação SIM pode-se ter mais de um preço a empresa, pior ainda, dois, três, ou até vários preços, mas numa situação definida e diferente, e tudo dentro de um marco coerente.

Veja a loucura, estamos falando que a resposta a uma pergunta é NÃO e SIM.  Um absurdo!  Ou seja, uma meia verdade. Mas é isso, e tentaremos demonstrá-lo.

Antes de mais nada vamos definir e utilizar a palavra "cenário" em vez de "dados de entrada" para maior clareza na explicação.  Se falarmos "mesmos dados de entrada", estamos falando "mesmo cenário".  No decorrer da explicação daremos um exemplo de "cenário".

Voltando a nossa leitura, vamos demonstrar que partindo de um mesmo "cenário", NÃO é possível ter dois preços diferentes.

A primeira coisa que devemos saber é que o valor de uma empresa depende de seu futuro.  Isso, além de ser infeliz por depender de dados desconhecidos, é também difícil de engolir.  Mas, afortunadamente é uma verdade demonstrável.

Vejamos-lho.  Sem entrar em detalhes profundos, pegue duas empresas de igual valor contável, ou seja, igual valor do patrimônio nos livros de contabilidade.  Uma produz DVD e a outra discos LP.  Qual vale mais?  Qual das duas compraria?  Claro, a que terá melhor desempenho.  A de DVD.  A de melhor fluxo de caixa futuro..... Falei futuro?  Estão vendo, o futuro ganho é o que interessa e não o passado porque o ganho passado é do dono anterior e o que acontecerá de agora a diante é nosso e é o que nos interessa realmente como investidores.

Para gerar esse fluxo futuro devemos definir um "cenário", e aqui lho definimos como projeções de vendas, de custos, de despesas, de investimento, de financiamento, completado com uma lista de premissas como inflação, desvalorização, política de estoques entre outras, para poder gerar dessa mezcla uma projeção resultante final.  Essa projeção resultante é um fluxo de caixa futuro.

Demos outro passo pequeno.  A segunda coisa para saber é que esse fluxo de caixa futuro é chamado dentro do mundo das Finanças Corporativas como Fluxo de Caixa Líquido (FCL) e é o sangue da empresa.  Sem ele ninguém sobrevive.  É como a respiração de uma pessoa.  Se você tem FCL você respira.  Se você não tem FCL, você não respira.

Na realidade o FCL é o dinheiro que pode ser tirado da empresa sem afetar sua funcionalidade.  Se em cada período você tira da Receita, os custos e despesas que você precisa fazer para manter essas vendas, e tira também os pagamentos a vencer e os investimentos que pretende fazer, restaria apenas o dinheiro que sobraria para reinvestir no futuro ou ser retirado da empresa como dividendos.  Se esses dividendos são negativos, significaria que sua empresa está em perigo e seu valor apenas são os ativos menos os passivos.  Se forem positivos, agradeça à Divina Providência, sua empresa tem valor e depende de seu poder de fogo que é gerar caixa.

Fundamentalmente ele representa o valor da empresa.  Não entraremos em detalhes de como se calcula o valor da empresa, mas podemos dizer que o valor de uma empresa depende deste FCL.  O que é aceito por ter bom senso é que maior esse FCL, maior deve ser o valor da empresa.  Fica claro, mais dinheiro gera a empresa, maior deve ser o valor dela. Isto logicamente é aceito pela comunidade científica por ser demonstrável.

Agora se o cálculo do valor da empresa depende direta e principalmente deste FCL, porque seria possível calcular dois valores diferentes?  As equações que na verdade são formadas por fórmulas são genuinamente funções.  E nós sabemos por definição matemática que as funções não podem ter dois valores no conjunto imagem do campo real.  Se A é igual a B, e A é igual a C, implica que B e C são iguais, não diferentes.  Se você não é matemático, pergunte a um professor de matemática a definição de função.

Portanto podemos concluir que se temos um FCL gerado por um cenário DEFINIDO que envolve as vendas, custos, despesas, investimentos, financiamentos e uma lista de premissas, podemos ter certeza de que o valor é único.

Compreendo que muitos avaliadores não concordam, mas nós não podemos aceitar o contrário à lógica só porque a maioria o aceita como uma verdade.

Pior ainda, nós afirmamos que se dois preços são calculados a partir de um mesmo cenário, poderia acontecer que não somente um dos dois está errado senão que ambos estejam errados.  Tema para ser discutido em outra ocasião.

Vamos explicar agora quando uma empresa pode ter mais de um preço.

Em base no que comentamos até agora, sabemos que definido um cenário temos um Preço da empresa.

Muito bem.  Porque não definimos outro cenário possível, já que são dados que geram um resultado de um futuro provável, e ter outro preço?  Porque não definimos 5 cenários possíveis e calculamos 5 preços diferentes?

Vejamos um exemplo de como pode ser aplicado de forma coerente poder utilizar vários preços.

Se uma empresa vai ser comprada e o comprador se sente desconfiado da avaliação da empresa, ele pode dizer que vai pagar o valor da empresa em 5 anos com 5 parcelas anuais.  Ele poderia exigir que o valor das parcelas vá depender do desempenho da empresa.  O único problema é que sua intervenção nesses 5 anos com certeza irá aumentar ou diminuir o desempenho da empresa.  Essa forma de avaliar ajudaria a reduzir a incerteza que se tem quando se processam dados do futuro. Mas isso é tema também para outra discussão.

É por isso que no final da primeira página de nosso portal falamos que "O valor de uma empresa depende de seu futuro".

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Isaac Hayon Sasson é Engenheiro Mecânico, Executive MBA, especializado em Finanças Corporativas, e consultor nas áreas de avaliação de empresas, projetos de engenharia, construção de fábricas e recuperação de empresas.

E-mail :  isaach@sti.com.br   Portal :  www.valordeempresa.com

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