Eu achava também, assim como “Condorito” na estória de que seria aumentar as vendas e reduzir custos e despesas. Esse era o caminho, mas infelizmente não seria assim tão simples. E os problemas começariam a se apresentar. O primeiro não tardou muito a aparecer.
Chegando à portaria para me identificar, um caminhão estava na minha frente. Esperei um pouco até sua passagem, mas ele não se movia. Desci para ver o que estaria acontecendo, e tive a surpresa de ver o motorista perdendo a paciência esperando sua entrada na fábrica, e comentando de forma acalorada com o policial da portaria de que era uma mercadoria em devolução. Parecia que o motorista era amigo da empresa que fazia essa devolução.
Retornei a meu carro, esperei o desenlace da portaria, pensei que a solução de vender mais estava longe de ser acionada com essa devolução, e torcia para que estas coisas não fossem rotineiras. Identifiquei-me e prossegui às dependências da empresa.
Fui recebido efusivamente pelo pai e mais tarde o filho se apresentou para iniciar uma conversa informal sobre o estado da empresa.
Após ter escutado as explicações de ambos sobre vários pontos da empresa, passei a lhes dizer que o elemento mais importante a se controlar seria algo chamado de Fluxo de Caixa. Algo parecido com a respiração de um ser vivo. Se você tem Fluxo de Caixa você respira; se você não tem Fluxo de Caixa simplesmente você não respira.
Na realidade o Fluxo de Caixa era o dinheiro que pode ser tirado da empresa sem afetar sua funcionalidade. Se em cada período você tira da Receita, as despesas que você precisa fazer para manter essas vendas, e tira também os pagamentos a vencer e os investimentos que pretende fazer, restaria apenas o dinheiro que sobraria para reinvestir no futuro ou ser retirado da empresa como dividendos. Se esses dividendos são negativos, significaria que sua empresa corre perigo. Se forem positivos, fique feliz que sua empresa tem valor e você poderá viver muito bem dela.
O filho me respondeu que se isso era tudo o que se teria a fazer, recuperar uma empresa seria uma coisa fácil. Eu concordei mas não perdi a ocasião de lhe contar a história de nosso amigo “Condorito”.
Expliquei-lhe que se não aumentassem as vendas de forma crescente e lucrativa, a empresa continuaria a apresentar um Fluxo de Caixa negativo, e não tardariam a atingir a inadimplência. De outro lado, se não conseguissem reduzir as despesas, eliminando as desnecessárias, e reduzir os custos, comprando em melhores condições a matéria-prima, continuariam operando em terrenos perigosos.
O filho achou que o problema estaria resolvido com a conversa de duas horas que tivemos. O pai achou que eu deveria trabalhar uma temporada com o filho. E eu achei que poderia acompanhar uma vez por semana “treinando” os dois, pai e filho, para revisar e controlar esse Fluxo de Caixa, mas só durante um período de três meses. E para deixar o filho mais a vontade, prometi que se não conseguisse recuperar a empresa, me demitiria absorvendo totalmente a culpa.
O desafio estava lançado. O filho não perdeu um segundo em aceita-lo e o pai sentiu que o momento da verdade havia começado.
Na primeira semana tive que estar presente duas vezes. Familiarizei-me com a operação da empresa e começamos a montar o fluxo de caixa. A receita foi construída com novas formas de vendas e um estrito controle da qualidade para reduzir as devoluções.
Na segunda semana continuamos resgatando idéias de vendedores experientes e técnicos em produtos que ajudavam a apresentar novos serviços. As vendas começavam a prometer melhores resultados.
Na terceira semana atacamos os custos. Buscamos matérias-primas de menores preços sem perder a qualidade e reduzimos todos os custos indiretos possíveis. O pai se mostrava satisfeito com os resultados atingidos até esse momento. Todo o tempo sorria.
No final do mês metralhamos as despesas. Toda despesa que não fosse vital era descartada. Renegociamos com os bancos os empréstimos, passando de taxa de juros estratosféricas à taxas mais suportáveis. Serviços que não se usavam e eram pagos foram também eliminados.
Conseqüentemente, na medida em que passavam os dias, o Fluxo começava a se mostrar azul, e o sorriso do pai atingia de orelha a orelha cada vez que eu ia lhe perguntar alguma coisa.
Eu não perdia oportunidade de lhes explicar o porquê de determinadas coisas. Seu funcionamento, seu relacionamento com outras áreas, seu cálculo, os resultados esperados.
No final do segundo mês a situação estava controlada. O Fluxo atingia números azuis, mesmo que não fossem grandes, mas pelo menos eram positivos.
Venceu a razão, a constância e a paciência.
Eu estava me demitindo, e pai e filho encontravam mais pontos em comum que antes não desfrutavam.
Quando saí da portaria da empresa pela última vez, sabia que novas portas estariam se abrindo. Também confirmava que era possível colocar de novo nos trilhos uma empresa viável.